O rastreamento do câncer é reconhecido como uma das estratégias mais eficazes para reduzir a mortalidade e ampliar chances de tratamento menos agressivo. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico especialista em diagnóstico por imagem, aponta que no Brasil, a distância entre a recomendação técnica e a realidade do acesso aos exames ainda representa um dos principais desafios da política de prevenção oncológica.
Embora o país disponha de diretrizes clínicas bem definidas para diferentes tipos de câncer, como mama, colo do útero e intestino, a dificuldade de transformar essas orientações em cobertura populacional adequada compromete os resultados esperados. O problema não está apenas na oferta de exames, mas na forma como o sistema organiza o caminho do paciente entre rastreamento, diagnóstico e início do tratamento.
A importância do rastreamento organizado
Em sistemas de saúde com melhores indicadores de controle do câncer, o rastreamento é estruturado de forma ativa, com convocações periódicas, controle de comparecimento e acompanhamento dos resultados. Esse modelo, conhecido como rastreamento organizado, permite identificar falhas rapidamente e direcionar recursos de forma mais eficiente.

Segundo Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, no Brasil predomina o rastreamento oportunístico, no qual o exame ocorre quando a pessoa procura o serviço de saúde por outro motivo ou por iniciativa própria. Esse formato gera desigualdades regionais, concentração de exames em determinados grupos e baixa cobertura justamente entre as populações mais vulneráveis.
Acesso desigual e barreiras regionais
As dificuldades de acesso variam significativamente entre regiões e municípios, informa Vinicius Tadeus Sattin Rodrigues. Em áreas com menor infraestrutura de saúde, a ausência de equipamentos, profissionais especializados e logística de transporte limita a realização regular de exames de rastreamento.
Mesmo quando o exame é realizado, outros gargalos surgem na sequência do cuidado, como exemplo, atrasos na liberação de laudos, dificuldade de agendamento de biópsias e demora para iniciar o tratamento formam um ciclo que reduz o impacto do rastreamento sobre a mortalidade. Esses entraves revelam que a prevenção não depende apenas de ampliar a quantidade de exames, mas de estruturar todo o fluxo assistencial, garantindo continuidade entre as etapas.
Qualidade dos exames e padronização de laudos
Outro ponto crítico é a variabilidade na qualidade técnica dos exames e na padronização dos laudos. Diferenças na calibração de equipamentos, na experiência dos profissionais e na adoção de sistemas de classificação podem afetar a sensibilidade do rastreamento.
Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a padronização de protocolos e a qualificação contínua das equipes são fundamentais para reduzir falsos negativos e encaminhamentos desnecessários. Quando o rastreamento é mal executado, perde-se a oportunidade de detectar lesões em estágios iniciais, comprometendo o principal objetivo da estratégia.
Integração entre atenção primária e serviços especializados
A efetividade do rastreamento também depende da articulação entre a atenção primária e os serviços de diagnóstico e tratamento. Profissionais da linha de frente têm papel decisivo na orientação da população, no encaminhamento adequado e no acompanhamento dos casos suspeitos.
A falta de integração entre esses níveis de atenção contribui para a perda de pacientes no percurso do cuidado. Muitas vezes, após um exame alterado, não há mecanismos eficientes de busca ativa ou de acompanhamento sistemático, o que pode resultar em atrasos críticos, ressalta Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues.
Impactos econômicos e sociais do diagnóstico tardio
O diagnóstico em estágios avançados não afeta apenas o prognóstico individual, mas gera impactos relevantes para o sistema de saúde e para a sociedade. Tratamentos mais complexos, internações prolongadas e afastamento do trabalho aumentam os custos diretos e indiretos da doença.
Tal como demonstra o doutor Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, investir em rastreamento eficaz é também uma estratégia de racionalização dos recursos públicos. A detecção precoce permite intervenções menos invasivas e maior chance de retorno do paciente às suas atividades, reduzindo o impacto socioeconômico do câncer. Essa perspectiva reforça que a prevenção deve ser vista como política estrutural, e não como ação pontual ou sazonal.
Caminhos para fortalecer a prevenção
Especialistas apontam que a ampliação do rastreamento organizado, a melhoria da infraestrutura diagnóstica e a integração dos sistemas de informação são medidas essenciais para avançar na prevenção do câncer no Brasil. Programas de capacitação e protocolos unificados também contribuem para elevar a qualidade dos exames.
Ao analisar esse cenário, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues destaca que soluções sustentáveis exigem planejamento de longo prazo e articulação entre diferentes esferas de gestão. Sem isso, iniciativas isoladas tendem a gerar ganhos limitados e temporários. O fortalecimento do rastreamento, portanto, depende de decisões estruturais que integrem prevenção, diagnóstico e tratamento dentro de uma lógica contínua de cuidado.
Autor: Sherse Faxyria
