Taiza Tosatt Eleoterio mapeia como a psicanálise entende o medo da solidão depois de uma separação

Mio Haruzaki
Por Mio Haruzaki
Taiza Tosatt Eleoterio

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio explica que o medo de ficar sozinha depois do fim de um relacionamento é uma das experiências emocionais mais comuns, mesmo quando a separação representa, na prática, um alívio importante diante de uma relação marcada por sofrimento. Essa aparente contradição entre sentir alívio e, ao mesmo tempo, temer a solidão costuma gerar confusão em quem está passando por esse momento, especialmente quando a pessoa não entende por que ainda sente falta de algo que, racionalmente, sabe que não lhe fazia bem.

Compreender a origem desse medo costuma ser um passo importante para que o processo de recomeço após o abuso aconteça de forma mais consciente e menos marcada por culpa ou autocobrança excessiva, permitindo que a pessoa construa uma relação mais equilibrada com a própria independência emocional.

Por que a solidão assusta tanto?

Do ponto de vista psicanalítico, o medo da solidão raramente está relacionado apenas à ausência física de outra pessoa, mas sim a questões mais profundas, como a dificuldade de lidar com o próprio silêncio interno e com sentimentos que, durante o relacionamento, ficavam mascarados pela rotina de conflitos e reconciliações. Quando essa rotina termina, a pessoa se vê diante de espaços vazios que precisam ser preenchidos de alguma forma, e isso pode gerar uma ansiedade significativa nas primeiras semanas após a separação.

Taiza Tosatt Eleoterio pontua que esse medo tende a ser ainda mais intenso em relacionamentos marcados por dependência emocional, já que, nesses casos, a identidade da pessoa muitas vezes se construiu em grande parte em função do parceiro, tornando o processo de separação uma espécie de reconstrução de si mesma.

A diferença entre solidão e sentir-se sozinha

Existe uma diferença importante entre estar fisicamente só e sentir-se sozinha emocionalmente, e essa distinção costuma passar despercebida por quem vive o medo da solidão após uma separação. Muitas vezes, dentro do próprio relacionamento abusivo, a pessoa já vivia uma solidão emocional profunda, sem conseguir compartilhar genuinamente seus sentimentos com o parceiro por medo de julgamento ou retaliação.

Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que reconhecer essa diferença ajuda a desfazer a ideia de que a solidão só existe fora do relacionamento, quando, na verdade, ela pode ter sido uma companheira constante mesmo durante os anos de convivência a dois.

O papel do tempo na elaboração desse medo

Elaborar o medo da solidão não é um processo linear nem rápido. Nos primeiros meses após a separação, é comum que a pessoa oscile entre momentos de bem-estar e períodos de angústia intensa, especialmente em datas ou situações que remetem à vida anterior em casal, como aniversários, feriados ou encontros sociais.

Taiza Tosatt Eleoterio considera que respeitar esse tempo de oscilação, sem cobrar de si mesma uma recuperação emocional imediata, costuma facilitar bastante o processo de elaboração, permitindo que a pessoa construa, aos poucos, uma relação mais saudável com sua própria companhia.

Construindo uma relação mais saudável consigo mesma

Um dos caminhos mais eficazes para lidar com o medo da solidão é investir no autoconhecimento e na construção de uma rotina que traga sentido e prazer de forma independente de qualquer relacionamento. Pequenas atividades, retomadas de hobbies antigos ou até mesmo momentos de silêncio reservados para reflexão podem ajudar a pessoa a redescobrir aspectos de si mesma que ficaram em segundo plano durante o relacionamento.

Além disso, contar com uma rede de apoio comunitário faz diferença significativa nesse processo, já que amigos e familiares podem oferecer companhia e acolhimento nos momentos em que a solidão parece mais pesada, sem substituir o trabalho interno de elaboração que cada pessoa precisa fazer em seu próprio ritmo.

Sinais de que o medo da solidão está dificultando o recomeço

Alguns sinais merecem atenção especial, como a tendência de aceitar de volta um relacionamento abusivo apenas para evitar ficar sozinha, a dificuldade de tomar decisões simples sem a validação de outra pessoa, ou ainda a sensação constante de que a própria vida só tem sentido na presença de um parceiro. Esses sinais não indicam fraqueza, mas sim que o medo da solidão está, naquele momento, pesando mais do que deveria nas escolhas afetivas da pessoa.

Taiza Tosatt Eleoterio indica que, quando esses sinais se tornam frequentes, buscar apoio psicológico especializado pode ajudar a pessoa a entender melhor a raiz desse medo e a desenvolver recursos emocionais mais sólidos para lidar com ele, sem que isso signifique voltar a relações que já causaram sofrimento no passado.

O medo da solidão não deve prender ninguém

Por fim, Taiza Tosatt Eleoterio reforça que o medo da solidão é real e válido, mas não precisa ser enfrentado em silêncio ou sozinho; existe apoio disponível para quem vive esse medo dentro de uma relação que machuca. Reconhecer esse medo e nomeá-lo com clareza é parte essencial do processo de reconstrução da autoestima após o fim de uma relação marcada por sofrimento. 

Com o tempo e o apoio adequado, buscar atravessar esse medo, em vez de evitá-lo, costuma abrir caminho para escolhas afetivas mais conscientes e para uma relação mais verdadeira consigo mesma. Esse processo, embora gradual, representa um passo decisivo rumo a uma vida afetiva mais livre e alinhada com o próprio bem-estar.

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