Ao analisar o tema sob a perspetiva de Márcio André Savi, profissional da área de engenharia, a discussão sobre a recuperação energética de resíduos parte de uma questão técnica, e não de uma promessa: qual tecnologia é mais apropriada para cada tipo de resíduo e em qual escala? A questão adquire importância devido ao fato de que grandes volumes de resíduos sólidos urbanos são encaminhados diariamente para os aterros. Esses resíduos contêm um potencial de energia pouco explorado, o qual está presente na matéria orgânica, nos plásticos e em outros materiais com poder calorífico.
O tema ganhou espaço no Brasil porque a Política Nacional de Resíduos Sólidos admite o uso de tecnologias de recuperação energética. No entanto, a mesma lei fixa uma ordem de prioridade que coloca a não geração, a redução, a reutilização e a reciclagem à frente do tratamento e da disposição final.
A compreensão de como a energia se encaixa nessa hierarquia, quais rotas tecnológicas estão disponíveis e que condições tornam um projeto sustentável é fundamental para que gestores públicos, empresas e cidadãos avaliem propostas com mais critério. É esse caminho que o texto percorre a seguir.
O que é recuperação energética e onde ela entra na gestão de resíduos?
Recuperação energética é o aproveitamento do conteúdo energético de resíduos recicláveis, mas que não puderam ser reaproveitados como material. A diferença é que, enquanto a reciclagem devolve a matéria ao ciclo produtivo, a conversão energética transforma essa matéria em calor, eletricidade ou combustível, encerrando sua vida útil como recurso físico.
Por esse motivo, a energia ocupa uma posição intermediária na hierarquia da gestão de resíduos. É importante ressaltar que a reciclagem urbana não substitui a coleta seletiva nem a compostagem, mas pode oferecer um destino útil para as sobras que não encontram mercado, como os rejeitos de triagem, plásticos mistos contaminados e materiais de baixo valor, que, de outra forma, ocupariam espaço em aterro por décadas.
Para Márcio André Savi, é imprescindível que o equilíbrio entre essas etapas esteja previsto já no projeto do sistema. A capacidade de uma planta para operar com grandes volumes de resíduos frequentemente depende desse fluxo, o que pode entrar em conflito com metas de redução e reciclagem se o planejamento não considerar a evolução da geração ao longo dos anos.

Principais rotas tecnológicas para transformar resíduos em energia
Não existe uma única forma de extrair energia do lixo. As rotas disponíveis variam conforme o tipo de resíduo, o grau de separação na origem e o produto final desejado, e cada uma traz exigências próprias de investimento e de controle ambiental:
- Biogás de aterro sanitário: captação do metano gerado pela decomposição da matéria orgânica já disposta, que pode alimentar motogeradores ou ser purificado e convertido em biometano.
- Biodigestão anaeróbia: tratamento da fração orgânica separada, como restos de alimentos e resíduos de poda, em reatores fechados que produzem biogás e um digestato com potencial de uso agrícola.
- Combustível derivado de resíduos (CDR): preparo de frações secas com alto poder calorífico, trituradas e padronizadas para substituir combustíveis fósseis em fornos de cimento e caldeiras industriais.
- Tratamento térmico com geração de energia: combustão controlada dos resíduos para produzir vapor e eletricidade, com sistemas de limpeza de gases dimensionados para atender aos limites de emissão.
- Gaseificação e pirólise: degradação térmica com pouco ou nenhum oxigênio, que gera gás de síntese ou óleos e ainda tem aplicação comercial mais restrita no caso dos resíduos urbanos.
A escolha entre essas alternativas depende diretamente das características do material. Resíduos com elevada parcela orgânica e grande umidade, comuns em cidades brasileiras, apresentam baixo poder calorífico e tendem a se ajustar às rotas biológicas. Por sua vez, resíduos secos e plásticos favorecem o CDR e os processos térmicos.
O engenheiro Márcio André Savi explica que esse diagnóstico inclui a caracterização gravimétrica dos resíduos, ou seja, um estudo que identifica a proporção de cada tipo de material gerado em um município. Na ausência de tal levantamento, a seleção da tecnologia pode estar sujeita a referências de outros países, cuja composição, clima e hábitos de consumo são significativamente distintos.
Viabilidade: custos, escala e controle ambiental
Os projetos de recuperação energética exigem grande investimento inicial, principalmente nas rotas térmicas, mas precisam de escala mínima de processamento para se tornarem viáveis.
A sustentação financeira usa diferentes fontes de receita, combinando venda de energia ou biometano, tarifas de tratamento e ganhos com reduções de emissões. Márcio André Savi integra essa discussão sobre os desafios da gestão de resíduos e a viabilidade de soluções sustentáveis. Como o retorno ocorre no longo prazo, contratos estáveis e segurança regulatória são tão importantes quanto a tecnologia.
Em sua avaliação, o controle ambiental deve ser tratado como parte integrante do projeto de engenharia, e não como uma etapa posterior ao licenciamento. Processos térmicos podem resultar na liberação de material particulado, óxidos de nitrogênio, dioxinas e furanos. Por conseguinte, sistemas de tratamento de gases, monitoramento contínuo e transparência na divulgação dos resultados para a população do entorno se fazem necessários.
A gestão dos subprodutos também deve ser considerada, assim como o digestato da biodigestão, que só pode ser aplicado se atender a critérios de qualidade. De acordo com Savi, um ciclo eficiente deve ser analisado do começo ao fim.
O papel da energia em uma gestão de resíduos equilibrada
A recuperação energética, embora não resolva isoladamente o problema dos resíduos sólidos urbanos, pode reduzir significativamente o volume destinado aos aterros e transformar parte do passivo ambiental em recurso. Márcio André Savi contribui para essa discussão ao considerar a importância de soluções integradas na gestão de resíduos. O valor da recuperação energética é evidenciado quando ela é utilizada em conjunto com outras práticas sustentáveis, como a redução, a reciclagem e a compostagem, em vez de competir com essas etapas.
Para que isso ocorra, a decisão deve ser baseada em dados locais, em escala adequada e com controle rigoroso das emissões. Segundo o ponto de vista de Márcio André Savi, um projeto alcança o sucesso quando há uma convergência de tecnologia, regulação e planejamento urbano, com objetivos claramente definidos para cada tipo de resíduo gerado pela cidade.
